Poucos temas expõem de forma tão direta a tensão entre produtividade, saúde pública, segurança hídrica e biodiversidade quanto os agrotóxicos. Eles existem porque a agricultura precisa lidar com pragas, doenças e plantas competidoras. Mas a pergunta honesta já não é se esses produtos têm função agronômica. A pergunta é outra: que tipo de sistema agrícola estamos financiando, regulando e naturalizando quando o controle químico vira rotina, e não último recurso?
O alerta internacional é consistente. O relatório Impactos Ambientais e à Saúde dos Agrotóxicos e Fertilizantes e Formas de Minimizá-los (Environmental and Health Impacts of Pesticides and Fertilizers and Ways of Minimizing Them) foi divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente em 2022, em colaboração com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e a Organização Mundial da Saúde (OMS). Apresentando que há evidência suficiente para tratar pesticidas e fertilizantes como tema de saúde, ambiente e governança, não apenas como insumo produtivo. Em 2025, a FAO também atualizou a base FAOSTAT (plataforma da FAO que reúne dados oficiais e comparáveis entre países) para 1990-2023 onde o uso agrícola global de pesticidas chegou a 3,73 milhões de toneladas de ingredientes ativos em 2023, 14% acima de uma década antes e o dobro de 1990. O dado não encerra o debate, mas mostra a escala e a complexidade do problema.
Na saúde humana, os efeitos vão das intoxicações agudas, mais visíveis entre trabalhadores rurais e aplicadores, a impactos crônicos mais silenciosos: alterações neurológicas, endócrinas, reprodutivas, imunológicas e maior risco de alguns tipos de câncer, dependendo da substância, dose, tempo e via de exposição. Crianças, gestantes, comunidades rurais, povos e comunidades tradicionais e populações que vivem próximas às áreas de aplicação tendem a carregar maior vulnerabilidade. A exposição não ocorre apenas no alimento. Ela pode chegar pelo ar, pela água, pelo solo, pela poeira doméstica e pela cadeia de trabalho.
Esse assunto, para mim, não começou em relatório internacional. No início dos anos 1990, ainda na faculdade, tive contato com um levantamento conduzido no ambiente acadêmico, pelo falecido Professor Igor, do Departamento de Farmacodinâmica do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu sobre contaminação por organoclorados no leite materno de mulheres da região do Médio Tietê.
“Aquilo ficou gravado para mim, não era uma abstração ambiental. Era a prova inconveniente de que certas moléculas atravessam o campo, entram no corpo, acumulam-se no tecido adiposo e reaparecem onde ninguém gostaria de encontrá-las: no início da vida. Os organoclorados ajudam a explicar por que persistência ambiental, bioacumulação e toxicidade não podem ser detalhes técnicos escondidos em pareceres.”
Nos ecossistemas, a lógica é semelhante. A contaminação de águas superficiais e subterrâneas, sedimentos, solos podendo afetar peixes, anfíbios, invertebrados aquáticos, abelhas, inimigos naturais de pragas, aves insetívoras e a microbiota do solo. O dano ecológico nem sempre aparece como mortandade imediata. Muitas vezes se expressa como perda de fertilidade biológica, redução de polinizadores, desequilíbrio trófico, seleção de pragas resistentes e empobrecimento da resiliência da paisagem
A União Europeia restringiu ou proibiu moléculas não por capricho ideológico, mas por decisões regulatórias apoiadas em avaliação de risco e no princípio da precaução. Em 2018, baniu os usos ao ar livre de três neonicotinoides – imidacloprido, clotianidina e tiametoxam – após conclusões da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) sobre riscos para abelhas. Em 2020, não renovou as aprovações de clorpirifós e clorpirifós-metílico diante de preocupações com genotoxicidade e neurotoxicidade no desenvolvimento, além da impossibilidade de definir níveis seguros de exposição com os dados disponíveis.
Por que, então, substâncias banidas ou fortemente restringidas na Europa ainda aparecem no Brasil?
A resposta está menos em uma única falha e mais em uma combinação de arquitetura regulatória, dependência produtiva e economia política. O Brasil tem avaliação pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), mas os registros não têm revalidação periódica automática com a mesma lógica europeia; as reavaliações costumam ser lentas; a pressão de pragas em ambiente tropical é maior; e muitos sistemas de monocultura foram desenhados para operar com pacotes químicos.
Não é tecnicamente honesto fingir que a transição é simples. Mas também não é aceitável transformar essa dificuldade em licença permanente para o risco.
O Plano Safra mostra a escala do desafio. No ciclo 2025/2026, a agricultura empresarial recebeu R$ 516,2 bilhões em crédito rural, dos quais R$ 414,7 bilhões para custeio e comercialização e R$ 101,5 bilhões para investimentos. A agricultura familiar somou R$ 89 bilhões em instrumentos próprios, sendo R$ 78,2 bilhões no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Não há rubrica exclusiva chamada “agrotóxicos” nesse orçamento, e talvez seja exatamente aí que esteja o problema. Em que o crédito de custeio financia insumos sem exigir, na mesma intensidade, metas de redução de risco, monitoramento ambiental ou adoção comprovada de manejo integrado. Dinheiro público orientando dependência química sem condicionantes é uma escolha política, mesmo quando não aparece assim nos relatórios.
O uso adequado, quando inevitável, precisa deixar de ser tratado como formalidade. Ele exige diagnóstico de campo, nível de dano econômico, receituário agronômico responsável, produto registrado para a cultura e o alvo, dose correta, calibração de equipamento, respeito ao intervalo de segurança e reentrada, condições climáticas adequadas, proteção de corpos d’água, Equipamento de Proteção Individual (EPI), armazenamento seguro e devolução de embalagens. Aplicar por calendário, sem monitoramento de praga, é sinal de dependência, não de tecnologia. Mas o ponto de inflexão é reconhecer que “uso correto” reduz riscos, mas não elimina efeitos crônicos, cumulativos, subletais e de misturas químicas em territórios vulneráveis.
As alternativas existem e muitas já provaram viabilidade em escala, desde que deixem de ser tratadas como experiências de vitrine. O manejo integrado de praga (MIP), controle biológico, bioinsumos, rotação e diversificação de culturas, restauração de bordas, cultivares resistentes e agricultura de precisão não são promessas futuras, mas ferramentas disponíveis que seguem subfinanciadas, mal assistidas tecnicamente e desconectadas dos incentivos que realmente movem as decisões no campo. O problema não é falta de opção, mas a necessidade de incremento e fomento de uma política que torne a opção menos arriscada economicamente para quem precisa colher no fim da safra.
Em larga escala, o caminho não é substituir uma dependência por outra. Bioinsumos podem reduzir risco, mas também precisam de qualidade, rastreabilidade, assistência técnica e avaliação de desempenho. O MIP funciona melhor quando há monitoramento de campo, diversidade de paisagem e decisão baseada em limiares, não em calendário de aplicação. A escala, portanto, não virá apenas da indústria ou da pesquisa; virá da combinação entre extensão rural, crédito condicionado, seguro que reconheça práticas de menor risco e capacidade dos produtores de atravessar a transição sem carregar sozinhos o custo econômico da mudança.
Painel de Monitoramento de Agrotóxicos nos Recursos Hídricos
Nesse contexto, o Painel de Monitoramento de Agrotóxicos nos Recursos Hídricos, lançado recentemente pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), em maio de 2026 com metodologia da Embrapa Meio Ambiente, é uma boa notícia institucional. A plataforma reúne 213 amostras, mais de 10,4 mil análises em 63 pontos do país e detectou 49 tipos de agrotóxicos em cursos d’água, com frequência geral de detecção de 7,2%. O valor do painel não está apenas no número, mas na mudança de cultura: água contaminada deixa de ser suspeita difusa e passa a ser dado público, territorializado e discutível.
A ferramenta também muda a qualidade da conversa pública. Em vez de discutir agrotóxicos apenas por posição ideológica, passa-se a discutir bacia hidrográfica, substância detectada, época da coleta, cultura predominante, risco para vida aquática e medidas de prevenção. Esse é o tipo de informação que pode orientar fiscalização, pactos nos comitês de bacia, zonas de amortecimento, boas práticas agrícolas e prioridades de pesquisa. Transparência, neste caso, não é detalhe democrático: é infraestrutura de prevenção.
Embora o Painel represente um avanço institucional importante, sua versão inicial deixou de fora o glifosato, justamente o herbicida mais comercializado no Brasil e fortemente associado à agricultura de grande escala. Essa ausência precisa ser tratada como uma lacuna técnica e política. Nas próximas etapas, será fundamental incluir o monitoramento do glifosato e do AMPA, seu principal metabólito, além de ampliar as análises para sedimentos, águas subterrâneas e áreas sob maior pressão agrícola. Essa necessidade ganha ainda mais relevância diante da classificação do glifosato pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), vinculada à OMS, como substância “provavelmente carcinogênica para humanos”.
“Nesse contexto, avançar na implementação do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (PRONARA) é uma medida necessária e estratégica. Sua efetivação exige força política, pois incide sobre interesses econômicos consolidados.”
O ponto central, como já abordado no artigo, não é defender nenhuma ruptura simplista com o modelo agrícola atual, mas construir uma transição mensurável, com metas, orçamento, governança interministerial, participação social, apoio técnico aos produtores e incentivos econômicos capazes de reduzir a dependência química sem comprometer a segurança alimentar. O PRONARA pode cumprir esse papel ao deslocar o debate da ideia de “uso seguro” como resposta suficiente para uma política mais ampla de redução de riscos, substituição gradual, inovação produtiva e proteção efetiva da saúde pública, dos trabalhadores rurais, da água, do solo e da biodiversidade. Para isso, o Brasil precisa retirar progressivamente as moléculas de maior preocupação, acelerar processos de reavaliação, condicionar parte do crédito rural à redução de risco, fortalecer os bioinsumos com avaliação técnica rigorosa, ampliar a assistência técnica e proteger zonas ambientalmente sensíveis.
Sergio Augusto de Mendonça Ribeiro, Diretor Geral do Centro Internacional de Água e Transdisciplinaridade- CIRAT.